"À Sombra do Comum" 14/12 a 02/02

, 14/12/2017

Detalhes

A mostra "À Sombra do Comum" reúne 6 artistas - alunos e ex-alunos - do curso de artes visuais da UNESP.

De 14/12/2017 a 02/02/2018
Av. Brasil, 2079 - Jardins, São Paulo - SP
www.andrearehder.com.br
+55 11 3081-0083

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 O que é comum é comum a todos, de baixo custo, acessível, barato. Depois de 105 anos do primeiro ready-made de Marcel Duchamp, parece que essa operação se cristalizou, ficou luxuosa, bem acabada, o que parece ser um contrassenso pois por trás do uso de um objeto comum, está a ideia de democratizar o acesso à arte. Não seria mais necessário um escultor comprar uma pedra de mármore para fazer uma escultura, ou fundi-la em bronze, ele poderia usar um objeto que tivesse ao seu alcance. Não precisaria ter uma tela de linho com uma moldura dourada, poderia fazer uma pintura ou uma colagem com qualquer material achado na rua. Como ocorreu com os artistas ligados a Arte Povera, que produziram obras utilizando materiais “comuns” para a criação de obras de grande profundidade. Pode-se dizer o mesmo no início do século XX, das obras criadas por Kurt Schwitters e suas experiências MERZ. A cada impulso na industrialização do século passado, no começo, no meio e no fim, houve um aumento dos excedentes de objetos e imagens. Os artistas nesses momentos usaram o que estava à sua volta, tanto por uma questão de facilidade como de se ter uma vontade e necessidade de interferir no mundo à sua volta. O comum como objeto ou imagem mundanos, corriqueiros, sem valor.
         Esta tem sido uma tradição na Arte, os moradores de rua, as prostitutas como modelos nas pinturas Barrocas, os alimentos preparados nos porões das casas frias europeias, a arte popular no Modernismo brasileiro, as imagens dos jornais nos anos da ditadura civil-militar, a arte sempre trazendo para dentro dela o que não é arte. Mais uma vez o comum surpreende. Aquilo que é corriqueiro leva para o centro de uma outra dimensão. Retira do cotidiano a sua capa utilitarista e oferece ao observador um sentido que ultrapassa o trivial.
Os artistas desta exposição trabalham o discurso de suas obras utilizando materiais e imagens comuns, tanto físicos como digitais, materiais de acesso fácil. Embora o ponto de partida para suas ações, tenha início com o emprego de matérias e materiais rotineiros, aliados a gestos e ações também originados dentro de um universo cotidiano, é justamente essa combinação que revela uma linguagem individualizada e particular. Uma característica partilhada por todos, talvez seja a utilização de imagens que evoluem por vários meios expressivos. Captadas inicialmente por um meio primordial, como desenho ou fotografia, desdobram-se em objetos, pinturas, vídeos, etc. 
          André Barion constrói seus volumes utilizando um repertório usualmente ligado ao que seria “corte e costura. Aproxima-se de artistas que durante o século XX transformaram o volume em matéria mole, abandonando na tradição da escultura e do objeto, o embate com a pedra, a madeira e a fundição em bronze. Utiliza um tecido dourado e cintilante, que recortado, costurado e estofado, dá origem a objetos irregulares, de aparência orgânica, parecendo fragmentos de um corpo maior. O brilho metálico dos objetos de André Barion, soa como uma ironia do comum dirigida aos metais fundidos.


Jorge Brazílio mostra pinturas com imagens de roupas sem corpo, meio amassadas mas erguidas, como se fossem andar sozinhas, um pouco fantasmagóricas, um pouco como animações de Walt Disney. São roupas comuns, sem pompa ou enfeites, roupas do dia a dia, não são roupas de domingo, como se dizia. São quase uniformes, roupas que todos têm, jeans na sua maioria. Essas pinturas são feitas com encáustica à frio sem pintura de fundo o que dá um aspecto escultórico muito particular para as imagens. Apesar de escultóricas são rasas, pouco pronunciadas além do próprio plano como se fossem relevos. Mesmo assim parecem leves, lépidas como dançarinos, são portadoras de uma enorme sensação de movimento. Marcadas pelo uso, essas roupas representadas nas pinturas parecem guardar um gesto de humanidade.  
          Pinturas impressas com serigrafia, misturadas com interferências feitas à mão aparecem nos trabalho de Mariano Barone , imagens manchadas, restos de marcas de tinta com poucas cores, amarelo e preto, como sinalização de trânsito, lembram formas e cores que se vê na cidade todos os dias. As telas fora do chassis podem estar presas na parede irregularmente com dobras e rugas. As sobreposições aparecem naturalmente criando algumas vezes grandes volumes. Dificilmente pode-se classificar os trabalhos de Mariano, criados por um gesto que congrega o aleatório e o instável. Uma ação semelhante a dinâmica que se encontra com frequência no espaço urbano, especialmente por suas características entrópicas. Suas obras deixam muitas dúvidas, “será que estão prontas?”, “são obras de arte ou posso no descarta-las?”. Dúvidas alias que tem sido muito presentes na arte contemporânea. Mesmo, o primeiro ready-made de Duchamp teve o destino desconhecido. A arte contemporânea apresenta essa maneira de atuar: quanto menos arte o objeto ou a imagem almejam, mais arte serão. E o inverso também é verdadeiro.
           As pinturas de Luiz Fernando Misao mostram pessoas comuns, amigos ou pessoas que participam do cotidiano do artista. Ao mesmo tempo esses retratos contém um discurso paralelo e simultâneo sobre a pintura abstrata. Por trás das figuras aparecem formas geométricas com um certo caráter expressivo. As imagens discutem as relações da representação na pintura, ora ilusionistas, ora não ilusionistas. Manchas de tinta que se tornam narizes ou orelhas e que voltam a se tornar manchas novamente. Como se a organicidade das figuras rivalizasse permanentemente com a geometria das faixas paralelas. Esse jogo entre o orgânico e o geométrico tem duplo sentido, alternando periodicamente o lugar do invasor. Ora são as faixas paralelas que desestabilizam a figuração, ora são as figuras que perturbam a regularidade das paralelas, num enfrentamento entre a singularidade das fisionomias diante da harmonia geométrica.
           Beatriz Ruco encara a pintura como um desafio de liberdade e surpresas, tudo pode acontecer em suas telas, não há limites formais ou conceituais; abstração, figuração, palavras, manchas expressionistas, geometria, tudo pode acontecer. A dificuldade que se apresenta é justamente essa, a cada pintura se busca uma surpresa e quando se acostuma com esse jogo a surpresa vem pela falta de surpresa, pela repetição. É uma pintura altamente desafiadora, tanto para a artista como para o observador. Na pintura de Beatriz Ruco dificilmente percebe-se uma unidade diretamente ligada a uma ordem temática, tão variadas são as questões de que se ocupa. Por outro lado, um olhar mais demorado sobre sua produção recente, revela uma identidade plástica entranhada no seu repertório, perceptível por meio de uma coleção de pequenos gestos e manchas, de ritmos alternados com áreas de repouso, de uma figuração revezada com planos abstratos, permitindo toda sorte de combinações.
           A imagem em movimento é o meio principal no trabalho de André Schütz e por esse motivo, as imagens gravadas digitalmente tem no deslocamento um de seus assuntos de maior relevância. Se no momento da captação, o comum se manifesta nessas imagens por meio da monotonia e repetição do cotidiano, por outro lado, André Schütz desmonta a trivialidade das composições interferindo nos processos de codificação e decodificação dos meios eletrônicos. Essa ingerência não manipula o meio digital na plenitude de suas possibilidades, mas sim busca criar uma imagem que se faz pelo desmonte da excelência da lógica matemática. Vê-se então durante o andamento contínuo e monótono de um veículo ao longo de uma grande rodovia, uma longa sequência em que a paisagem transforma-se constantemente. O curso é extenso e ininterrupto como se não houvesse fragmentos, sem início e sem fim. Por outro lado, a repetição incessante de um jogador arremessando uma bola, que imediatamente após o lançamento já está novamente nas mãos do lançador, aparece incessante. André também utiliza o meio digital para criar instalações onde a imagem eletrônica interfere diretamente no ambiente, criando um campo de fusão entre uma dimensão real e virtual do espaço.
            As obras desses artistas não parecem querer ser arte e contraditoriamente, por isso mesmo, tornam-se a melhor arte.



José Spaniol
 
Sergio Romagnolo

"À Sombra do Comum" 14/12 a 02/02